168. Sobre a Existência do Ímpio

Salmo 37.9, 10, 20, 35, 36

SOBRE A EXISTÊNCIA DO ÍMPIO

Introdução

  1. Ímpio é uma expressão em nossa língua que tem sua origem no latim “impius”, formada pelo prefixo de negação “in” e a palavra “pius”, que significa piedoso, justo. Portanto, refere-se a alguém que pratica a crueldade, injustiça, maldade.
  2. É uma expressão frequentemente usada como tradução na Bíblia, principalmente no velho Testamento, da palavra original “reshá” (רָשָׁע), descrevendo alguém que age assim porque é contrário à vontade de Deus, conscientemente rejeitando a lei divina, sendo assim rebelde, incrédulo, ateu. Também é sinônimo de maligno, iníquo, sem temor.
  3. Em nosso idealismo religioso, tal pessoa não deveria existir na face da terra e, se viesse a existir, deveria ser imediatamente extirpada, inclusive como evidência do juízo de Deus, para que apenas os piedosos e justos exercessem influência no mundo.

Desenvolvimento

  1. A nossa consequente frustração de vivermos em um mundo onde o ímpio existe e prospera também foi expressa pelo profeta Jeremias em seu tempo. Diante dos acontecimentos e a certa altura de sua vida, ele exclamou: “Ó SENHOR, tu és justo quando apresento minha causa perante ti. Contudo, desejo falar contigo sobre a tua justiça. Por que o caminho dos ímpios prospera? Por que vivem em paz todos os que procedem de modo traiçoeiro? Tu os plantaste e eles criaram raízes; crescem e dão frutos; tu estás sempre próximo de seus lábios, mas longe do coração deles" (Jeremias 12:1-2). Jó igualmente externa essa frustração em meio às suas dores existenciais, quando perguntou: “Por que razão os ímpios vivem, envelhecem e ainda se fortalecem em poder?" (Jó 21:7). Diante do sucesso e do êxito dos ímpios na sociedade dos seus dias, o salmista Asafe chegou ao ponto de duvidar se valia a pena ser uma pessoa correta, justa e piedosa. Em sua frustração, ele confidenciou seus sentimentos, dizendo: “Eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios. Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força. Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens. Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno. Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar. São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente. Põem as suas bocas contra os céus, e as suas línguas andam pela terra. Por isso o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem. E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo? ² Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas. Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência” (Salmos 73:3-13).
  2. Foi exatamente em razão desse idealismo que não se realiza e da frustração que se experimenta diante da existência e do sucesso dos ímpios, que o salmista Davi conversou consigo mesmo e com outros crentes, conforme deixou escrito no salmo 37.

2.1. No primeiro momento, o salmista Davi aconselha a si mesmo e aos outros crentes a não se deixarem afetar pelos ímpios, mas a permanecerem confiantes em Deus e a serem praticantes da justiça, da piedade e da equidade: “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade. Confia no Senhor e faze o bem; habitarás na terra, e verdadeiramente serás alimentado. Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele o fará. E ele fará sobressair a tua justiça como a luz, e o teu juízo como o meio-dia. Descansa no Senhor, e espera nele; não te indignes por causa daquele que prospera em seu caminho, por causa do homem que executa astutos intentos. Deixa a ira, e abandona o furor; não te indignes de forma alguma para fazer o mal” (Salmos 37:1,3-8).

2.2. No segundo momento, o salmista Davi explica o motivo, afirmando categoricamente a efemeridade dos ímpios, seja quanto à existência neste mundo, seja quanto à existência na eternidade. Os ímpios serão ceifados, perecerão, desaparecerão, serão extintos, mais cedo ou mais tarde. Por mais que pareçam ser inalcançáveis, inatingíveis e intocáveis, mais cedo ou mais tarde os ímpios sentirão o peso da ira de Deus.

Conclusão

Se os ímpios existem e tem algum sucesso neste mundo, em vez de nos deixarmos levar pelo sentimento de frustração ou pelo pensamento de que eles sempre prevalecem, precisamos ter e esperança (esperar com certeza) de que eles realmente são efêmeros, isto é, o sucesso e a própria existência das pessoas que praticam o mal ou vivem em oposição aos princípios divinos são temporários e, em última instância, fúteis. Embora os ímpios possam prosperar no presente, o seu futuro ou sua eternidade tem como consequência julgamento e a condenação.