I Coríntios 11.31
JULGANDO A NÓS MESMOS
Introdução
- O que normalmente acontece quanto ao exercício do julgamento é a atitude de julgar os outros, tanto porque é um mecanismo automático da mente diante do comportamento alheio, como porque herdamos na vida social a prática dos tribunais judiciais previstos em lei, que estão continuamente sendo acionados.
1.1. Quanto a essa atitude, em linhas gerais, a recomendação que a Bíblia faz é para que o julgamento não seja pautado pela precipitação, nem baseado nas aparências, nem desprovido de provas e testemunhos verdadeiros, nem movido pela hipocrisia e nem resultando em condenação injusta.
1.2. Por isso, embora o Velho Testamento tenha incluído essa prática em suas recomendações, Jesus chegou ao ponto de ensinar diferentemente, dizendo: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Ao flexionar a necessidade de fazer julgamento, Jesus advertiu para que haja reta justiça: “Não julgueis segundo a aparência e sim pela reta justiça” (João 7.1).
Desdobrando esse ensino, Tiago argumentou em sua epístola: “Há só um legislador que pode salvar e destruir. Tu, porém, quem és, que julgas a outro?” (Tiago 4.12).
- Paulo apóstolo, ainda mais sabiamente ensinou que, se vamos julgar, antes de julgar a quem quer que seja, devemos nos julgar a nós mesmos, analisando com justiça nossos sentimentos, pensamentos, vontade, comportamentos e ações. Sua principal argumentação é a de que o julgamento próprio evita sermos julgados pelos outros, principalmente porque passamos a ter todas as possibilidades de fazer a correção de rumos antecipadamente.
Desenvolvimento
- Para não incorrermos em interpretação equivocada do que seja o ato de julgar em termos bíblicos, vejamos o significado das palavras originais usadas.
1.1. No texto lido, escrito aos coríntios, há duas expressões usadas. Uma delas é “διακρίνω” (diakrínō), que significava “separar, fazer distinção, discriminar, preferir, aprender por meio da habilidade de ver diferenças, tentar, decidir, determinar, julgar, decidir uma disputa”. A outra é “κρίνω” (krínō), que significava “separar, colocar separadamente, selecionar, escolher, aprovar, estimar, preferir, ser de opinião, julgar, pensar”. Por mais que exista variedade de traduções, o contexto realmente quer dizer “emitir juízo de valor sobre algo ou alguém”.
1.2. No texto em que Jesus radicaliza, dizendo para que não façamos julgamentos sobre outrem ou para que o julgamento seja segundo a reta justiça, a palavra usada é a mesma: “κρίνω” (krínō). Significa também emitir juízo de valor sobre algo ou alguém.
1.3. No texto desdobrado por Tiago salientando que somente Deus tem a perfeição de julgar quem quer que seja, a palavra também é “κρίνω” ((krínō), continuando a significar o emitir juízo de valor sobre algo ou alguém.
- Salientando a recomendação do apóstolo Paulo no sentido de que, antes de julgar a quem quer que seja, tornemo-nos “experts” em julgar a nós mesmos, desenvolvemos o autoconhecimento, aperfeiçoamos os critérios de justiça, aumentamos a sensibilidade pela compaixão e ampliamos o bom senso nos relacionamentos.
2.1. O único cuidado que devemos ter na atitude de julgar a nós mesmos é nos livrar de julgamentos feitos por outras pessoas sobre nós, na história de nossa vida, que poderiam influenciar de maneira tóxica, prejudicial, destrutiva. Estou me referindo a frases que pessoas nos disseram, tais como “você é um fracasso”, “você é incompetente”, “você não conseguirá nunca”, “você não será ninguém na vida”.
2.2. Se não nos livrarmos desses julgamentos, no ato julgar a nós mesmos, podemos nos prejudicar, dizendo; “Eu não sirvo para nada”, “Eu não sou ninguém”, “Eu não tenho valor”, “A culpa é toda minha”.
2.3. Neste caso, não estaremos realmente nos julgando a nós mesmos, mas sendo influenciados pelo julgamento de outras pessoas.
Conclusão
Se os tribunais não deixarão de existir e se não conseguiremos deixar de julgar aos outros, que então haja reta justiça nesses julgamentos. Mais ainda: aprendamos a julgar a nós mesmos de modo saudável, adquirindo principalmente habilidade e autoridade para julgar os outros.













