Hebreus 12.16,17
LÁGRIMAS DE CROCODILO
Introdução
- Ao lançar mão das lágrimas para mudar seu destino, acredito que Esaú estava contando com o valor que as lágrimas já tinham demonstrado na história de outras pessoas. Afinal, se lágrimas para a ciência se constituem basicamente de água, cloreto de sódio e potássio, que protegem, limpam e nutrem nossos olhos, para Deus as lágrimas podem expressar arrependimento, sofrimento, angústia, decepção, frustração, empatia, solidariedade.
- Basta lembrar o valor das lágrimas ao mudar histórias de pessoas como Agar, José, Davi, Ezequias, Jeremias, Pedro. Considerando o valor das lágrimas para Deus, em um dos seus salmos, Davi escreveu: “Tu contas as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre. Não estão elas no teu livro?” (Salmos 56.8). Por isso, Deus mandou Isaías dizer a Ezequias: “Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas” (Isaías 38:5).
Desenvolvimento
- No caso de Esaú, todavia, o autor da carta aos hebreus fez revelações de suma importância para que não pensemos em fazer de nossas lágrimas uma oportunidade teatral, uma cena de manipulação emocional e nem um recurso inútil diante de Deus. Deus sabe quando são lágrimas de crocodilo, expressão popular usada para descrever um choro falso, fingido ou uma demonstração hipócrita de tristeza
1.1. Para Esaú, as lágrimas eram inúteis porque ele não deu importância aos valores espirituais. No caso dele, em sua época, ele trocou sua primogenitura por um prato de comida. Nos tempos bíblicos, o primogênito recebia certos direitos, responsabilidades e privilégios exclusivos. O filho primogênito do sexo masculino de tinha prioridade e preeminência na família e recebia o melhor da herança. O problema é que o usufruto dessa herança só era experimentado depois da morte dos pais. Por causa de sua fome imediata ele não quis esperar pelas bênçãos que receberia no futuro.
1.2. Em nossos dias, seria o mesmo que trocar a igreja por um estádio de futebol, trocar a oração pela autossuficiência, trocar a Bíblia por livros de autoajuda, trocar a entrega de dízimos por um almoço no restaurante, trocar Deus pelos ídolos, trocar a fé pelo ateísmo, principalmente movidos pelo imediatismo, pelo materialismo, pelo liberalismo e pela incredulidade. Agindo assim, nossas lágrimas serão também inúteis, por mais copiosas que sejam.
- Evidentemente que nenhum crente terá uma atitude assim como crente verdadeiro. Para que isso aconteça, esses dois traços de mau caráter encontrados em Esaú também precisam estar presentes, mesmo que a pessoa seja religiosa como Esaú.
2.1. “Ninguém seja fornicário como Esaú”. A palavra original é “πόρνος” (pórnos), cuja tradução literal significa homem que prostitui seu corpo por pagamento, que se entrega à relação sexual ilícita, fornicador, prostituto. No caso de Esaú, ele ajuntou-se com mulheres cananitas e ismaelitas, o que causou profunda amargura a seus pais, Isaque e Rebeca (Gênesis 26.34-35; 28.6-9). O apóstolo Paulo usou essa expressão em suas cartas dirigidas a cristãos, cuja tradução é “impuro” - um estilo de vida que deve evitado pelo crente a todo custo (I Coríntios 5.9-11; 6.9; Efésios 5.5). Se não evitar, de nada servirão as lágrimas.
2.2. “Ninguém seja profano como Esaú”. A palavra original é “βέβηλος” (bébēlos), cujo significado era não santificado, incrédulo, sem religião. Significava tratar com desrespeito, desprezo ou banalidade aquilo que é considerado sagrado, santo ou consagrado para Deus. No caso de Esaú, ele se tornou profano quando desprezou a instituição da primogenitura estabelecida por Deus: “Então falou o Senhor a Moisés, dizendo: “Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é” (Êxodo 13.1,2)”. Em nossos dias, embora o Código Penal Brasileiro estabeleça como crime a profanação religiosa, isto é, a “ofensa ou o escárnio público às crenças ou funções religiosas de outra pessoa, bem como a profanação de locais e objetos de culto”, a pessoa se se torna profana quando despreza, deprecia, desvaloriza, invalida os ensinos de Deus. Agindo assim, de nada adiantarão suas lágrimas.
Conclusão
Por mais que o arrependimento seja a porta de reconciliação com Deus desde a época dos profetas e principalmente nos ensinos de Jesus Cristo e dos apóstolos, Esaú “não achou lugar de arrependimento”. A expressão usada “heurískō” significava “descobriu” que o arrependimento não teria mais lugar para ele, mesmo chorando muito. Era o mesmo que “não adiantava mais”, “havia ultrapassado todos os limites”. Se situação semelhante ocorreu com Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, a recomendação do autor da carta aos hebreus aos cristãos continua até hoje: “Ninguém seja como Esaú”, pois não haverá mais oportunidade para arrependimento e as lágrimas serão como de crocodilo, um chorar falso, fingido, uma demonstração hipócrita de tristeza.













