243. Nas Mãos do Oleiro

Jeremias 18.1-6

NAS MÃOS DO OLEIRO

Introdução

  1. Na viagem que fiz à cidade de Belém, no Estado do Pará, a propósito de uma das assembleias da Convenção Batista Brasileira, aproveitei a oportunidade para conhecer uma olaria indígena, fabricante da cerâmica marajoara. Assim que entrei no espaço onde o indígena trabalhava como oleiro, por coincidência, vi que obra de barro caíra de suas mãos e se esborrachara deformada, no chão. Ele abaixou-se e, tomando aquela massa disforme em suas mãos, recomeçou seu trabalho e concluiu com uma linda cerâmica. Acabei trazendo dois vasos como lembrança.
  2. No caso do profeta Jeremias, ele ouviu Deus lhe dizendo para ir a uma olaria, na parte baixa de Jerusalém, perto das margens do ribeiro de Cedrom. Ao lhe dar essa orientação, Deus queria lhe ensinar uma das mais importantes lições a respeito do seu propósito e capacidade em recuperar pessoas, que por alguma razão, foram danificadas, deformadas, estragadas. Não era apenas para ver a obra material de um oleiro em ação, mas para usar a cena como analogia espiritual e aplicar à vida do seu povo.

Desenvolvimento

  1. A aplicação feita por Deus através do profeta Jeremias, era a respeito do povo de Israel. Nessa época, o povo vivia uma profunda crise espiritual, moral e política, marcada por injustiças sociais, idolatria e a iminência da destruição de Jerusalém pela Babilônia, que crescia em poder e ameaçava diretamente a soberania de Judá.

1.1. O governo era um fantoche, alternando alianças fracas entre o Egito e a Babilônia, o que enfraquecia o país. Os líderes, reis, sacerdotes e falsos profetas exploravam os pobres, os órfãos e as viúvas, ignorando a lei de Deus. O povo confiava cegamente na presença do Templo de Jerusalém, acreditando que Deus jamais permitiria a destruição da cidade, mesmo vivendo em pecado. O povo abandonou a aliança com Deus, fazendo aliança com Baal e a Rainha dos Céus, inclusive praticando rituais pagãos no próprio Templo.

1.2. Antes de anunciar a chegada do juízo e da condenação, Deus diz que podia transformar as pessoas, recuperando-as de seus pecados e iniquidades. Através da analogia do oleiro recuperando o vaso estragado, Deus chamou o povo para o arrependimento, mas o povo não quis: “Fala agora aos homens de Judá, e aos moradores de Jerusalém, dizendo: Assim diz o Senhor: Eis que estou forjando mal contra vós; e projeto um plano contra vós; convertei-vos, pois, agora cada um do seu mau caminho, e melhorai os vossos caminhos e as vossas ações. Mas eles dizem: Não há esperança, porque andaremos segundo as nossas imaginações; e cada um fará segundo o propósito do seu mau coração” (Jeremias 18.11,12).

  1. Estendendo a analogia feita por Deus, através do profeta Jeremias na cena do vaso estragado na olaria, para os dias de hoje, a interpretação e aplicação espirituais para nós podem ressignificar fatos que estariam acontecendo vida. Momentos de crise, perdas, falhas, erros, pecados, dores físicas e emocionais, perseguições, injustiças podem fazer você se sentir desfigurado ou sem valor, um vaso disforme, quebrado, mas Deus tem o poder de transformar tudo.

2.1. O salmista teve um momento quando se sentiu assim e deixou escrito: “Tem misericórdia de mim, ó Senhor, porque estou angustiado. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu ventre. Porque a minha vida está gasta de tristeza, e os meus anos de suspiros; a minha força descai por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem. Fui opróbrio entre todos os meus inimigos, até entre os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos; os que me viam na rua fugiam de mim. Estou esquecido no coração deles, como um morto; sou como um vaso quebrado” (Salmos 31.9-12).

2.2. O compositor Gerson Rufino fez um cântico, cuja letra reflete esse sentimento humano: “Um vaso cheio de pecado, vazio de Deus. Um vaso outrora usado, porém trincou. Vazou dele toda virtude, não mais prestou. Um vaso que era uma bênção. Perdeu a prudência, então fracassou. Um vaso tão cheio de graça. Virou para o mundo e o pecado entrou. Hoje perdeu a aparência. Pois é consequência do que praticou. O efeito do triste pecado. Vaso abençoado em tristezas ficou”.

  1. Na mão do Oleiro divino, o momento em que a pessoa se sente quebrada é, na verdade, o início de uma nova modelagem. O oleiro não jogou o barro estragado no lixo; ele o refez. Independentemente dos erros do seu passado ou das marcas que a pessoa carrega, a sua história não foi descartada. Há sempre a oportunidade de um recomeço e de uma nova identidade.

3.1. O processo de moldar novamente a vida pode levar algum tempo, mas ao final certamente a obra será perfeita. Será como ensinou o apóstolo Paulo: “Estou convencido de que aquele que começou a boa obra em vocês vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1.6).

3.2. Assim como Deus transmitiu ao povo daquela época, através do profeta Jeremias, Deus está dizendo hoje através do Espírito Santo qual deve ser a sua atitude. Naquela época, Deus falou em arrependimento, conversão. Na época de Jesus, Pedro e Paulo, esse era o mesmo apelo: “Arrependam-se”. Mediante o seu arrependimento e fé em Jesus Cristo, Deus fará da pessoa um vaso novo, dando uma nova vida.

Conclusão

Deus quis ensinar no passado e quer ensinar no presente que, apesar de nossas debilidades, fraquezas, quedas, erros, deslizes e estragos, Ele pode transformar a nossa vida, fazendo dela um vaso novo. Basta nos colocarmos em suas mãos.