206. Entre Servir e Adorar

Lucas 10.38-42

ENTRE SERVIR E ADORAR

Introdução

  1. Um dos mais antigos dilemas em nossa religiosidade diz respeito à tensão entre a atitude de servir e a de adorar. Para Tiago, foi um tema de debate teológico, quando escreveu sua carta aos primeiros cristãos, esclarecendo que “a fé sem obras é morta” e enfatizou que ao praticar as boas obras estava exercendo sua fé. Para Marta, foi uma experiência amarga, quando ouviu Jesus criticar sua atitude de servir em vez de lhe prestar adoração, como Maria estava fazendo.
  2. Por mais que entendamos o argumento de Tiago, é muito mais importante entender o argumento de Jesus Cristo, quando pretendia fazer com que Marta compreendesse o que chamamos de prioridade. Assim como em outras situações, Jesus considerava o que fosse prioridade, neste caso Jesus queria ensinar que a adoração deve preceder e o serviço até mesmo para que haja espiritualidade no ato de servir.

Desenvolvimento

  1. Ao estudar esse episódio bíblico, não precisamos criticar Marta e nem quem quer que seja, usando o diagnóstico chamado de “Síndrome de Marta”, porque em maior ou menor grau, variando de pessoa para pessoa, a maioria dos seres humanos costuma ser ativista e, por isso, estaríamos condenando a nós mesmos. A natureza humana é fortemente orientada por resultados, alvos e utilitarismo. Muitas vezes transferimos essa lógica para a espiritualidade, acreditando que o nosso valor diante de Deus seria medido pelo volume de tarefas realizadas, tais como organizar eventos, liderar projetos, ajudar os necessitados, cumprir compromissos, dar conta do recado, participar dos ensaios musicais, dirigir cultos.
  2. Por isso, penso que a melhor atitude é compreender Marta, para que então possamos compreender a nós mesmos, passando a ter a outra visão mostrada por Jesus na atitude de Maria.

2.1. Está claro, muito claro, que Marta queria de todo coração servir a Jesus Cristo. Diríamos hoje: “Servir era o seu lema”. Se vivesse em nossos dias, ela nos diria as palavras de Jesus: “Eu vim para servir.” Citaria com facilidade o texto de Tiago: “Eu mostro a minha fé através do meu serviço”.  Acrescentaria uma frase que às vezes aparece por aí: “Quem não vive para servir, não serve para viver”.

2.2. Também esperava envolver Maria em suas atividades, a partir do seu exemplo. Quem se dedica ao serviço, quase sempre não gosta de quem não trabalha também. Nesse sentido, ela esperava que Jesus mandasse Maria trabalhar com ela. Aliás, foi muito clara nesse objetivo: “Dize-lhe, pois, que me ajude”.

2.3. Aliás, nós que trabalhamos sabemos que se as pessoas não trabalham, não buscam uma atividade, não se interessam em ter um emprego, não buscam fazer um “bico”, serão classificadas como indolentes e preguiçosas sujeitas principalmente a passar fome.

2.4. Achamos muito importante recitar os textos do livro de Provérbios que comparam pessoas ativas com formigas, mostrando pela Bíblia que quem trabalha será recompensado. Gostamos até de contar aquela fábula da formiga e da cigarra. Enquanto a cigarra deixava os dias passarem apenas cantando, as formigas trabalhavam e guardavam. Quando chegou o inverno, a cigarra morreu e as formigas sobreviveram.

2.5. Certamente que Marta queria experimentar o sentimento do dever cumprido. Experimentar aquilo que já experimentamos várias vezes quando servimos ou praticamos as boas obras:  trabalhar proporcionar prazer, inclusive prazer espiritual de estar servindo a Deus.

2.6. Ao olhar os relatórios feitos, as sementes plantadas, a colheita concluída, a loja arrumada, as vendas consumadas, a parede levantada, o serviço feito, dizemos para nós mesmos: “O tempo passou, você está esgotado, mas você conseguiu”. Nesse sentido, ela esperava que Jesus lhe dissesse: “Muito bem, serva leal e fiel”.  

  1. Em vez disso, Jesus lhe disse que estava deixando de ver o que era prioridade naquele momento. O perigo do ativismo religioso sem adoração é que ele esvazia a motivação interna de espiritualidade. Sem a adoração, o serviço vira apenas trabalho burocrático ou assistencialismo secular ou mero ativismo religioso.

3.1. Quando priorizamos a adoração centralizamos o foco naquilo que é considerado essencial, reconhecendo sua transcendência e valor absoluto. Na adoração, o indivíduo se lembra de quem ele é em relação a Deus e o serviço que nasce daí não busca validação ou aplausos humanos, pois a alma já está preenchida.

3.2. A adoração como prioridade protege o cristão do “burnout” espiritual, evitando que o ativismo consumidor de energia o leve a ficar doente. Um dos efeitos desse tipo de ativismo na atualidade é visível nas estatísticas de pessoas religiosas doentes: 40% de líderes  sofrem dessa doença.

Conclusão

     Não devemos criticar Marta porque às vezes somos exatamente como ela. O que precisamos é ver Jesus abrindo nossos olhos no dia a dia, no meio dos muitos afazeres, tarefas, compromissos, para nos dirigirmos a Ele, presente em nosso coração, a fim de viver com ele momentos profundos de comunhão e adoração. Ao agirmos assim, veremos que o serviço será o fruto inevitável da adoração. Aliás, uma adoração que não gera serviço ao próximo é mística alienada e falsa, por isso podemos ter certeza de que depois da adoração Maria também realizava serviços e praticava boas obras como crente em Jesus Cristo.